segunda-feira, 20 de março de 2006

Canção para um dia normal

Vejo a clave do sol entre cabos eléctricos
onde andorinhas semifusas pousam
Vejo compassos compostos de madeira – postes
que se multiplicam no horizonte – partitura campestre
Vejo melodias impossíveis de tocar
composições intestinais de pássaros – em decomposição
Vejo um violoncelo que se masturba
com a batuta de igor – o Stravinski
Vejo que o violoncelo não tem alma
(ou se tem não a consigo ver)
Vejo um sapo que perde as asas que nunca teve
e que coaxa triste porque sabe que, na verdade,
não se perde o que nunca se teve
Vejo que o sapo sem asas coxeia da perna esquerda
(embora seja da direita porque a vejo num espelho)
O sapo contou-me que depois de ler a «Metamorfose» de kafka – que se escreve com K

descobriu que não podia usar sapatos
porque não tinha dedos para tocar viola
No entanto garantiu-me que nunca usou sapatos
Vejo um papagaio sósia do Super-Homem
e que fala como Zaratustra – ventríloquo exímio
Vejo Vénus sentada de pernas abertas virada para Meca
Vejo Camões disfarçado de homem invisível
quando este descobriu o caminho equestre
para a Ilha dos Amores – epopeia erótica que fala
de um sapo sem asas que não usava sapatos
e de uma princesa que, beijando o sapo,
roubou-lhe as asas e foi viver com um papagaio
que era amante de uma andorinha semifusa
por quem se apaixonou um violoncelo
que se masturbava porque parecia que não tinha alma
Vejo-me a mim próprio vendo-me num espelho
que não é mais do que uma clave de sol electrificada
onde se perde o horizonte e onde há um arco-íris
com apenas sete cores a preto e branco
Vejo sete mulheres nuas em forma de caveira
Vejo um louva-a-deus com complexos de Édipo
Vejo o sexo da minha amada pintado por mim
numa tela com dois metros e meio por três
Vejo dentro do seu sexo todo o meu amor por ela
que é ainda maior do que a tela que pintei
Vejo a Terra como se estivesse na Lua
Numa esplanada à beira-mar a ouvir
a Tarde em Itapoã de Vinícius – o De Morais
Não vejo, enfim, nada que ainda não tenha visto.