quarta-feira, 5 de abril de 2006

Dedicatória I



Ó músicos narcisistas e languinhentos
intérpretes em decomposição
ó filhos de pautas diminutas
fazei-me o obséquio de parar de tocar
de tanger essas guitarras gementes
porque me tirais da compostura
calai-me esses instrumentos
de uma vez por todas
que ainda me dá uma síncope

ó batutas rambanas
ó comparsas ternários
ó sinfonias rolantes
ó adoradores de Bach que bebeis em sua honra
aduladores de barba de três dias
moldadores de barro de Barcelos
ocarinas em forma de galo
jarros que enfeitais as montras
charros de bebedeiras monstras

ó fígaros da púcara
ó plágios de domingo
ó fantasmas tenores da ópera
ó solistas ó sulistas «ó sole mio»
ó bitolas de Beethoven
noctívagos de Chopin
monges chupistas de Béla Bartók

ó Béla Bar toca
toca a marcha do defunto
porque o que eu quero
é que essa cambada de melros
tocadores de sinfonietas
se extinga molto presto
nem mais um andamento
nem allegro nem pianissimo
irra! que se me arrepia a espinha