sábado, 8 de abril de 2006

Dedicatória III



ó romancistas parasitas da escrita
ó poetas piegas
ó sonetos medidos ao milímetro
«ó alma minha que não sossegas»
ó carneiros barrigudos e pessimistas
que passeais os vossos cornos intelectuais
pelas ruas de Paris
ulálá

e vós saramagos seres amargos
que paristes ensaios invisíveis
onde pusestes os pontos que não os vejo?
ó portugas apessoados que fingis que fingis

o que deveras fingis
ó portugas imbecis que fugis
da literatura como o diabo da cruz
ai Jesus ai Jesus
que se me arrepia a espinha

ó poetas fatalistas
ó boémios fadistas
ó guerreiros de junco
ó nações ó canhões
ó metralhadoras da língua
ó antiaéreas de quintal
ó camelos de perdição
ó triste odisseia dos canaviais
ó Espanca sem esperança
morra dantes ou depois
ó convencidos da vida
que pegais na pena
como se fosse a própria pila
ó alma de pedreiros
ó poetas mirolhos de rima luzidia
que produzistes camiões de versos
homéricos e pindéricos
e que cantarolastes o amor e o mar
como se o amor e o mar
precisassem de ser cantados

ó camélias alexandrinas
ó comédias divinas
ó inclassificáveis mestres clássicos
de fin-de-siècle
infames mascadores de chiclete
ardei nas chamas que vos chamam
vós e a vossa escrita janota
morrei
morrei nas profundezas dos infernos
irra! que se me arrepia a espinha