domingo, 14 de maio de 2006

"Desce o nível da decência e subirás na audiência"



A revista Meios & Publicidade elegeu José Eduardo Moniz [JEM] como “personalidade do ano”. Que teve o mérito de conseguir, ao longo de 2005, manter a TVI com o maior índice de audiências dos canais generalistas.
Do meu ponto de vista, esta escolha baseia-se em alguns equívocos. É um erro de palmatória. Senão vejamos.
Não tenho dúvidas que, qualquer canal – querendo – subiria o nível de audiências amanhã mesmo. É muito simples, e nem sequer precisaria de ter à cabeça um programador muito talentoso. A estratégia resumir-se-ia a três ou quatro pontos-chave: transformar os noticiários em espectáculos de entretenimento puro e duro, com a mais descontraída das latas; engendrar uns reality shows, pondo lá dentro uns cromos famosos (inventados à pressão) dispostos a deixar a dignidade à porta e a fazer umas piruetas para entreter a malta lá em casa; seria importante ter uma apresentadora frenética e histérica, que passasse o programa inteiro a gritar boçalidades mais alto do que a lei do ruído permite; conceber um programa matinal muito, muito colorido, com um apresentador também muito colorido, enérgico, a transbordar felicidade e que falasse pelos cotovelos, mas, condição fundamental, que não tivesse nada para dizer. No fundo, ter uma programação que não saísse disso mesmo: do fundo.

Ora, como toda a gente sabe, é esta a estratégia da TVI. Ao contrário da SIC e da RTP (principalmente esta última), cujas direcções de programação ainda vão tendo algum decoro, o director da TVI não se deixou levar por esta – direi – fraqueza. Fiel seguidor do adágio “desce o nível da decência e subirás na audiência”, JEM logrou chegar ao topo da pirâmide. O que, à partida, parece um contra-senso, é, na realidade, a coisa mais óbvia. Enveredando pelo caminho da descida (às vezes vertiginosa) da qualidade dos programas, muitos deles medíocres e a roçar o indecente, e aproveitando a tendência voyeurística do telespectador (coisa, aliás, que JEM conhece como ninguém), depressa o canal se instalou no topo do ranking.
Não vejo, portanto, onde é que está o mérito. JEM fez exactamente aquilo que não se espera de um imaginativo e rigoroso director de um canal de televisão. Escolheu o caminho mais fácil. Assim também eu.
E, já agora, se a RTP1 foi eleita pela mesma revista a melhor estação generalista, porque não atribuir o prémio "personalidade do ano" ao seu director?
Uma outra coisa me ocorre. No fundo (peço desculpa por insistir nesta expressão), a TVI não é um canal generalista. É mais uma espécie de “canal temático de entretenimento”, como diz no Público de hoje uma investigadora de ciências da comunicação na Universidade do Minho, Felisbela Lopes, a propósito da estreia do novo reality show da estação de Queluz. Eu é que não apanho esse comboio.