sexta-feira, 5 de maio de 2006

E você? Em que século vive?


Isto sim, é que é tourada...

Numa vila ribatejana ocorreu uma “maratona de mais de 25 horas seguidas” de largadas de touros. Segundo a organização, a cargo da junta de freguesia, mais de 20 mil pessoas assistiram ao grande espectáculo. “Lamentavelmente”, uma pessoa morreu, outra feriu-se com gravidade e seis só ligeiramente. De acordo com o presidente da junta, “tudo estava preparado, em termos de segurança e logística”. Dois médicos e várias equipas de bombeiros. E “foram lançados vários alertas, através da aparelhagem sonora, para os cuidados a ter com os touros”. “Mas era muita gente e bastou uma distracção”. “Foi uma colhida fatal” disse o presidente. Se calhar, as vítimas caminhavam tranquilamente distraídas naquele belo fim de tarde, quando subitamente, são abalroadas por um touro vindo não se sabe de onde. Digo eu.
Há ainda um pormenor importantíssimo a acrescentar, no que se refere à segurança. “Os touros não estavam totalmente em pontas, tinham os cornos "afeitados” (cortados na ponta). Só por isto poupou-se uma data de vidas… Digo eu também.
Mas esta mancha (de sangue?) não afectou de modo algum o sucesso da festa. “O impacte mediático e a adesão das pessoas ultrapassou as expectativas”. Finalmente, o orgulhoso presidente da junta dá a última estocada: o “nome da vila” e as “suas tradições” foram divulgados, como se pretendia. Nem mais.

Esta história, verídica, só por si, já é ridícula.

Mas a festa poderia ter sido um êxito muitíssimo maior. Se tivessem morrido umas seis ou sete pessoas, se houvesse uma dúzia de feridos graves e uma centena com alguns arranhões ligeiros, aí sim, seria uma festa memorável. E se alguns touros tivessem penetrado em ruas não autorizadas, varrendo a turba como um tsunami, muito melhor seria.

Acham horroroso? Na verdade é este tipo de animação que o povo procura. Vai na expectativa de ver um ou mais desgraçados a serem colhidos pelos cornos de um touro. É isso que importa. Ver sangue. E cheirá-lo.
Esta é exactamente a mesma gentinha que pára nas auto-estradas quando há acidentes só para ver o espectáculo. Causando filas intermináveis de automóveis. E mais acidentes. É aquela multidão que se põe, histérica, à porta dos tribunais, prontinha a chacinar o presumível culpado de um crime qualquer. Assim as autoridades deixassem. É a mesma que se aglomera para ver – com os próprios olhos – o contorcido suicida que se atirou do prédio abaixo. Exemplos não faltam.

A estupidez não tem limites. Nem a época medieval. Porque é, de facto, na Idade Média que uma boa parte dos portugueses ainda vive. Orgulhosamente.